quinta-feira, 29 de outubro de 2009

São Francisco: Capítulo V

São Francisco (portalcot.com)



Certo dia em que o homem de Deus viajava pela Apúlia, encontrou no caminho uma grande bolsa cheia de moedas. Vendo-a, seu companheiro quis apanhá-la para gastar com os pobres, mas ele não permitiu de forma alguma, dizendo: “Filho, não é permitido pegar os bens alheios”. Mas como ele insistiu muito, Francisco, depois de breve oração mandou recolher a bolsa, que não continha dinheiro e sim uma cobra. Ao vê-la, o frade teve medo, mas, como não queria obedecer e executar a ordem que recebera, pegou a bolsa com as mãos e dela saiu uma grande serpente. E o santo disse: “O dinheiro para os escravos de Deus, não é outra coisa que o diabo, a serpente venenosa”.

Um frade que sofria de forte tentação pensou que, se tivesse consigo algum papel escrito pelo santo, a tentação cessaria imediatamente, mas hesitava em pedir, quando o homem de Deus o chamou: “Meu filho, traga-me papel e tinta , pois quero escrever alguma coisa em louvor a Deus”, E depois de ter escrito, disse:” Tome este papel e guarde-o cuidadosamente até o dia da sua morte”. Imediatamente toda a tentação afastou-se dele.

Quando o santo estava doente, o mesmo frade pôs-se a pensar: “ Aqui está o pai, prestes a morrer, e seria um grande consolo para mim se depois da sua morte eu tivesse a sua túnica”. Pouco depois São Francisco chamou-o: “ Dou esta túnica para você e depois de minha morte ela será sua de pleno direito”.

Ele fora hospedado em Alexandria, na Lombardia, na casa de um homem honesto que lhe pediu para observar o Evangelho e comer tudo que fosse servido. Quando por devoção ele assentiu, o anfitrião apressou-se em preparar-lhe um capão de sete anos para a refeição. Enquanto estavam à mesa, um infiel pediu esmola pelo amor de Deus. Logo que ele ouviu o bendito nome de Deus, mandou entregar ao mendigo um pedaço do leitão. O miserável guardou-o e no dia seguinte, enquanto o santo pregava, mostrava-o dizendo: “ Eis que tipo de carne come esse frade que vocês honram como santo; foi ele que me deu isso ontem à noite”. Mas a todos a perna do leitão pareceu peixe. O mendigo foi acusado pelo povo de louco, compreendeu o que ocorria, enrubesceu, pediu perdão, e quando o prevaricador foi embora a carne voltou a ser o que era.

Fonte: Legenda Áurea, Jacopo de Varazze

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O último discurso


Em 1939, a Alemanha de Hitler sonhava a utopia da superioridade ariana e da expansão tentacular a qualquer preço - um deles, a extinção do povo judeu. Em 15 de outubro de 1940, Sir Charles Spencer Chaplin Jr (Londres, 16 de abril de 1889/25 de dezembro de 1977, autor, diretor, roteirista e músico) lançou o filme O Grande Ditador, uma imortal, célebre obra de crítica aos ideais fascistas e nazistas, ao totalitarismo correntes à época em grande parte da Europa.


Este foi o primeiro filme sonoro de Chaplin, inaugurando um canal de expressão mais forte no roteiro de um discurso. Chaplin magistralmente interpretou dois personagens: um ditador e um barbeiro judeu, fisicamente idênticos. Há várias cenas inesquecíveis neste filme. Algumas silenciosas (como na sequência em que o ditador brinca com um globo terrestre) mas, nas cenas onde há som é poderosa a força da mensagem falada a atingir - ferina e crítica - o contexto político da época. O Último Discurso, cena que coroa todo este grande filme impressiona por sua atualidade: não há como ficar impassível frente àquelas palavras...Ao discurso totalitário de um sobrepõe-se o discurso do outro pregando a fraternidade universal...

Se àquela época vivia-se o terror da Segunda Guerra Mundial, ainda hoje o homem convive com a insanidade de guerras esparsas que parecem não ter fim e a angústia é a mesma. Precisamos rever, reler os grandes discursos - todos, sejam dos grandes ditadores, dos grandes pensadores, dos sábios, dos humildes, dos ignorantes, das crianças, da Natureza. Precisamos erguer os olhos como Hannah (referência à filósofa judia Hannah Arendt, 1906-1975 e, talvez à própria mãe de Chaplin) e acreditar que sairemos todos "da treva para a luz"...

Talvez o primeiro passo para isso seja a capacidade de extrair de cada discurso, de cada noticiário de jornal, de cada incidente doméstico a pergunta e a resposta que eles carregam intrinsecamente. Há sempre algo que podemos aprender, apreender, desde que nos propomos a arguir. Não podemos perder nossa capacidade de nos entristecer com o sofrimento alheio, não podemos assistir anestesiados aos noticiários e crê-los distantes.

Chaplin não se deixou embrutecer, nem se calou perante os fatos de sua época. Seu filme foi inicialmente mal recebido pela crítica e desencadeou a sua saída dos EUA.Temos muito a aprender com Chaplin e seus personagens (com o Charlot, ou em alguns países, Carlitos, com o ditador e com o barbeiro judeu). Seu canal de expressão foi o cinema...e o nosso, qual é?

Transcrevo abaixo, na íntegra, o texto de O último Discurso e, em video a cena antológica .

O ÚLTIMO DISCURSO

"Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá”.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unâmo-nos!

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!"

Ficha Técnica:
Origem: E.U.A. - 1940
Duração: 123m (pb)
Autoria: Charlie Chaplin
Produção: Charlie Chaplin
Realização: Charlie Chaplin
Fotografia: Karl Strüss e Roland Totheroh
Música: Meredith Wilson
Com: Charlie Chaplin, Paulette Goddard, Jack Oakie, Billy Gilbert, Henry Daniell, Reginald Gardner, Grace Hayle, Maurice Moscovich, Emma Dunn.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

São Francisco: Capítulo IV

Foto : cot.org.br


As lágrimas que São Francisco constantemente derramava fizeram-no contrair uma doença nos olhos, e quando o aconselharam a parar de chorar respondeu: “ Não é por amor a essa luz que temos em comum com as moscas que se deve renunciar a ver a luz eterna”. Seus irmãos insistiram para ele remediar o mal com uma operação, e quando o cirurgião tinha na mão um instrumento de ferro incandescente o homem de Deus disse: “ Meu irmão fogo, seja bondoso e cortês comigo. Rogo ao Senhor que o criou que amenize para mim seu calor”. E assim dizendo fez o sinal-da-cruz sobre o instrumento que foi enfiado na sua delicada carne, pela orelha até a sobrancelha, sem que sentisse dor alguma, como ele próprio relatou.

O escravo de Deus estava gravemente doente no ermitério de Santo Urbano. Sentindo que a natureza estava enfraquecida, pediu para beber um pouquinho de vinho, mas como não havia, levaram-lhe água, que ele benzeu fazendo o sinal-da-cruz e no mesmo instante ela foi transformada em ótimo vinho. O que a pobreza daquele lugar deserto não podia fornecer, a pureza do santo homem conseguiu, e logo que provou o vinho ficou restabelecido.

Ele preferia ouvir insultos que louvores, e quando as pessoas exaltavam os méritos de sua santidade, ordenava a algum irmão que proferisse palavras aviltantes. E quando o irmão, muito a contragosto, chamava-o de rústico, mercenário, inábil e inútil, ele dizia, todo alegre: “ Que o Senhor o abençoe por dizer coisas verdadeiras e mais convenientes de ouvir”. O escravo de Deus preferia ser inferior a superior, obedecer a comandar. Por isso se demitiu do comando geral da Ordem e pediu um guardião, a cuja vontade estaria sujeito em tudo. Prometeu e praticou sempre a obediência em relação ao irmão com quem costumava andar.



Fonte: Fonte: Legenda Áurea, Jacopo de Varazze

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

São Francisco: Os Estígmas - Capítulo III

Os estigmas de São Francisco de Assis, por Cimabue


Em uma visão, o escrevo de Deus viu acima dele um serafim crucificado que lhe imprimiu as marcas de sua crucificação de maneira tão evidente que parecia ter sido ele próprio o crucificado. Suas mãos, seus pés e seu flanco foram marcados com as feridas da cruz, mas com cuidado ele escondeu dos olhos todos os estigmas. Alguns, no entanto, viram-nos enquanto ele vivia, e após sua morte muitos puderam examiná-los. A existência real desses estigmas foi confirmada por muitos milagres, dos quais basta relatar dois, ocorridos depois de seu falecimento.
Na Apúlia, um homem chamado Rogério, que tinha sob os olhos a imagem de São Francisco, pôs-se a pensar: “ Será verdade que ele foi honrado com tão glorioso milagre, ou foi uma piedosa ilusão ou mesmo uma simulação intencional de seus irmãos?”. Enquanto remoia tais pensamentos, ouviu de repente um ruído semelhante ao de um dardo lançado por um balista e sentiu-se gravemente ferido na mão esquerda, mas apesar de não haver nenhum rasgo em sua luva, tirando-a descobriu na palma da mão uma profunda ferida como feita por uma flecha. Ela ardia tanto que parecia que ia desmaiar de dor e de ardor. Ele se arrependeu e testemunhou acreditar na realidade dos estigmas e dois dias depois orando para São Francisco, ficou curado.
No reino de Castela, um devoto de São Francisco foi atacado por engano por alguém que pretendia matar outra pessoa, e foi deixado semimorto. O cruel bandido enfiou depois a espada na sua garganta, e não conseguindo retirá-la, fugiu. Chegou gente de todo o lado, houve muitos gritos e ele foi chorado como sendo um homem morto. Quando à meia noite o sino dos frades soou para as matinas, sua mulher começou a gritar: “ Levante-se, meu senhor, vá às matinas que o sino chama”. Imediatamente o ferido ergueu a mão e pareceu fazer sinal a alguém para que tirasse a espada, que diante de todos foi jogada longe como se tivesse sido arrancada por um punho muito vigoroso. No mesmo instante o homem levantou-se perfeitamente curado dizendo: “ O bem-aventurado Francisco veio a mim e, colocando seus estigmas sobre minhas feridas, encheu cada uma delas de um bálsamo suave que as curou maravilhosamente. Como ele queria se retirar, eu lhe fazia sinal para arrancar a espada, porque não podia falar. Ele a tirou e com força, e logo curou completamente minha garganta passando seus estigmas sobre ela.”



Fonte: Legenda Áurea, Jacopo de Varazze

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Dia 15 de outubro: Dia do Professor


Tive inúmeros professores em minha vida acadêmica e inúmeros que não portavam esse título e, que me ajudaram na construção do que hoje sou. Interessante como nos lembramos de poucos...geralmente daqueles que nos exigiam mais em termos de desempenho escolar...

Poucos alunos se dão conta de que aqueles professores que lhes exigem horas extras de estudo são os que realmente irão marcá-lo, irão contribuir na sua futura formação profissional. Pensa-se - equivocadamente - que um professor "bonzinho", que fecha os olhos às "colas" em época de prova, que exige pouca pesquisa é um bom professor.

Lembro-me de um professor que, certa vez, me "exigiu demais". Estava em minha última faculdade e, deveríamos fazer pesquisas - como parte da aula - em um computador. Não sabia sequer ligá-lo! Sentí-me envergonhada perante meus jovens colegas; via-me atrapalhando o rendimento de suas pesquisas, por terem de pará-las a todo instante para me dar explicações sobre como começá-la...

Um dia, fui procurá-lo para expor a minha angústia, minha inconformação com o que considerava ser-me prejudicial. Afinal, existem outras formas de se fazer uma pesquisa - pensava eu nos livros...Nunca esquecerei o que esse professor me disse. Não sei se por minha sinceridade no falar, naquele dia descobrí um homem no mestre e, um mestre no homem...

Aquele homem fez-me um breve resumo de sua vida até aquele momento (grau de Mestrado a caminho do Doutorado); contou-me de uma vida de pobreza, sacrifícios, de vontade de progredir, estudar e nobreza de caráter. Falou-me à época que ainda não dispunha de dinheiro para comprar um computador, pois enviava dinheiro para seus velhos pais. Mostrou-me que eu pagava - e caro - por uma faculdade que, entre outras coisas, me disponibilizava um computador. Que aprendesse a lidar com ele!

Ví depois a imensa sabedoria daquele homem...Aquele que realmente vê em seu aluno o profissional em latência que um dia será, força-lhe conhecer os diversos tipos de instrumentos para que se enriqueça e se amplie o seu futuro profissional...E sabia ele, não descurado o valor de uma biblioteca, da qual também não se pode prescindir: a Internet é uma poderosa fonte de pesquisas.

Quando vejo crianças e jovens se perguntando do porquê são obrigados a estudar determinada matéria que "não gostam", lembro-me do meu professor. Olho para eles - num misto de carinho e solidariedade pelo que fui - e rogo a Deus que lhes dê um professor como o que eu tive...

O processo de aprendizagem é complexo e existem várias concepções do que é ensinar, como ensinar, o que ensinar, para que ensinar, como transmitir, enfim, um determinado conhecimento. Várias pesquisas têm sido desenvolvidas nas áreas de Psicologia e Educação, particularmente, devido às críticas que vêm sendo feitas à forma de ensino nas escolas, o que denota uma preocupação dos educadores com a qualidade do que é apreendido pelo aluno. Isso tudo é muito importante quando se consideram questões como: O que realmente o aluno aprende? Quanto da forma como o professor expõe o conteúdo da matéria interfere na compreensão do aluno sobre esta matéria? Quantos alunos adquirem "raiva" de determinada matéria devido ao professor? Quantos alunos terão sua futura escolha profissional embasada em determinada matéria que certo professor, uma vez, lhes apresentou?

A todos os professores, deixo minha mensagem de carinho pelo seu dia. Minha gratidão àqueles que me ajudaram na construção de mim mesma - sejam os de uma escola, sejam aqueles ou aquilo que me cerca...Particularmente àqueles dos quais me lembro, meu respeito, minha admiração e a certeza de que hoje sei que à época estavam certos...Àquele professor ao qual me referí, meu abraço sincero , saudoso e cheio de orgulho!

Creio que todo professor, enquanto tal (aqui não me refiro, pois, àqueles que não têm consciência de que o são a todo instante, isto é, as pessoas com as quais convivemos no nosso dia-a-dia, excluído o meio escolar) deveria ter essa consciência de que a forma como transmite seu saber é crucial na simpatia/antipatia por determinado campo do saber. A forma com que se doa à nobre profissão é plenamente percebida pelo estudante; um bom professor será assim lembrado no futuro, porque se irmanava com seus alunos na busca do aprendizado...Se sempre aluno, esmerava-se como professor no repassar daquele pouco que julgava dominar e assim realmente transmitia...

Deixo abaixo um texto que considero bastante pertinente e, também, uma homenagem a todos os professores pelo seu dia.

Parábola ao professor

"És o semeador da parábola.
Não te preocupes onde caem as sementes.
Semeia sempre.
A cada um será dado segundo suas obras.
Se tua semente não germina, examina com confiança tuas ações;
Faze tua auto-crítica: reconhece teus enganos; recomeça com teu exemplo, com
humildade, lutando contra os desenganos da vida, semeando o amor, o respeito, a fé, a
confiança no próximo e em Deus.
E se ainda, não brota a tua semente, insista sempre, com paciência, regando com amor a
terra árida da sementeira alcançando o adubo da compreensão, removendo a mata da
discórdia e deixando que a luz do Sol da fé possa trazer seus raios para a floração
perfeita da primavera.
E no fim de cada jornada de trabalho, ora a Deus pedindo-lhe amparo e proteção, para
que tua paciência não falte, para que teu amor não se esgote.
Luta com confiança contra todos os obstáculos que possam surgir na caminhada de
Mestre e Professor." (desconheço a autoria)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

São Francisco: Capítulo II


São Francisco costumava se alojar como convidado na casa de Leão, cardeal de Santa Cruz, quando uma noite os demônios foram espancá-lo com grande violência. Ele chamou seu companheiro e disse:
Os demônios são os fiscais de Nosso Senhor destinados a punir nossos excessos. Como não me lembro de ter cometido uma falta que não tenha expiado com a misericórdia de Deus e com penitência, talvez Ele tenha permitido que seus fiscais se lançassem sobre mim porque continuo hospedado na corte de nobres, o que pode despertar suspeitas em meus pobrezinhos frades vendo-me no meio de abundantes delícias. Ele se levantou bem cedo e foi embora.

Um dia estava em oração quando ouviu no telhado da casa bandos de demônios que corriam fazendo grande ruído. Ele saiu rapidamente e fazendo sinal-da-cruz sobre si, disse: “ Da parte do Deus onipotente, digo a vocês, demônios, que parem com o barulho. Façam com o meu corpo tudo que for permitido a vocês, pois estou disposto a suportar já que, não tendo maior inimigo que meu corpo, vocês me vingarão do meu adversário por mim”. Confusos, os demônios desvaneceram-se.

Em êxtase, um frade, companheiro do homem de Deus, viu entre os tronos do Céu um deles digníssimo, fulgurante de nobre glória. Cheio de admiração, ele se perguntava a quem esse brilhante trono estava reservado, e ouviu: “Esse trono foi de um dos príncipes expulsos, e agora está preparado para o humilde Francisco”. Depois de uma oração, ele perguntou ao Homem de Deus: “ Que opinião você tem de si mesmo, pai?”. Ele : “ Eu me considero o maior pecador”. E imediatamente o Espírito Santo disse no coração do irmão: “ Saiba que o que você viu na visão é verdade, porque a humildade elevará o mais humilde de todos ao trono que foi perdido por soberba”.

Fonte: Legenda Áurea, Jacopo de Varazze

terça-feira, 6 de outubro de 2009

São Francisco: Capítulo I


São Francisco escreveu uma regra evangélica para si e para seus irmãos presentes e futuros. Após confirmada pelo papa Inocêncio, começou a difundir com mais fervor do que nunca a semente da palavra de Deus e a percorrer cidades e aldeias, animado com admirável zelo.
Certa vez, chegando a Arezzo, onde ocorria uma guerra civil, viu no ar das redondezas demônios que se alegravam com isso. E chamando seu companheiro Silvestre disse-lhe: “ Vá à porta da cidade, e da parte de Deus onipotente ordene aos demônios que saiam de lá”. Ele foi rapidamente até a porta, onde gritou com força: “ Da parte de Deus e por ordem do nosso pai Francisco, saiam todos, demônios”. Pouco tempo depois a concórdia foi restabelecida entre os cidadãos.
São Francisco estava em oração e o diabo chamou-o três vezes pelo nome. O santo perguntou o que ele queria e o diabo respondeu: “ Não há neste mundo nenhum homem, por mais pecador que seja, por quem o Senhor não tenha misericórdia, se ele se converte, mas aquele que se matar por uma dura penitência jamais encontrará misericórdia”. Imediatamente conheceu por revelação a malícia do inimigo, que se esforçara por fazê-lo cair na tibieza. Mas o antigo inimigo, vendo que não prevaleceria assim, inspirou-lhe uma forte tentação da carne. Sentindo-a, o homem de Deus despojou-se de seu hábito e golpeou-se com uma corda fina e dura dizendo: “ Eia, irmão asno, não se mexa, pois é preciso sofrer com o chicote”. Mas como a tentação demorava a passar, jogou-se completamente nu na neve espessa e depois fez com a neve sete blocos arrumados em pilha e começou a falar com o corpo: “ Veja, este maior é sua mulher, os outros quatro, dois são seus filhos e dois suas filhas, os dois restantes são seu escravo e sua escrava. Apresse-se em vestir a todos, pois estão morrendo de frio, mas se esses múltiplos encargos o importunam, sirva o Senhor com solicitude”. Imediatamente o diabo retirou-se, confuso, e o homem de Deus voltou à sua cela, glorificando a Deus.

Fonte: Legenda Áurea, Jacopo de Varazze