sexta-feira, 9 de outubro de 2009

São Francisco: Capítulo II


São Francisco costumava se alojar como convidado na casa de Leão, cardeal de Santa Cruz, quando uma noite os demônios foram espancá-lo com grande violência. Ele chamou seu companheiro e disse:
Os demônios são os fiscais de Nosso Senhor destinados a punir nossos excessos. Como não me lembro de ter cometido uma falta que não tenha expiado com a misericórdia de Deus e com penitência, talvez Ele tenha permitido que seus fiscais se lançassem sobre mim porque continuo hospedado na corte de nobres, o que pode despertar suspeitas em meus pobrezinhos frades vendo-me no meio de abundantes delícias. Ele se levantou bem cedo e foi embora.

Um dia estava em oração quando ouviu no telhado da casa bandos de demônios que corriam fazendo grande ruído. Ele saiu rapidamente e fazendo sinal-da-cruz sobre si, disse: “ Da parte do Deus onipotente, digo a vocês, demônios, que parem com o barulho. Façam com o meu corpo tudo que for permitido a vocês, pois estou disposto a suportar já que, não tendo maior inimigo que meu corpo, vocês me vingarão do meu adversário por mim”. Confusos, os demônios desvaneceram-se.

Em êxtase, um frade, companheiro do homem de Deus, viu entre os tronos do Céu um deles digníssimo, fulgurante de nobre glória. Cheio de admiração, ele se perguntava a quem esse brilhante trono estava reservado, e ouviu: “Esse trono foi de um dos príncipes expulsos, e agora está preparado para o humilde Francisco”. Depois de uma oração, ele perguntou ao Homem de Deus: “ Que opinião você tem de si mesmo, pai?”. Ele : “ Eu me considero o maior pecador”. E imediatamente o Espírito Santo disse no coração do irmão: “ Saiba que o que você viu na visão é verdade, porque a humildade elevará o mais humilde de todos ao trono que foi perdido por soberba”.

Fonte: Legenda Áurea, Jacopo de Varazze

terça-feira, 6 de outubro de 2009

São Francisco: Capítulo I


São Francisco escreveu uma regra evangélica para si e para seus irmãos presentes e futuros. Após confirmada pelo papa Inocêncio, começou a difundir com mais fervor do que nunca a semente da palavra de Deus e a percorrer cidades e aldeias, animado com admirável zelo.
Certa vez, chegando a Arezzo, onde ocorria uma guerra civil, viu no ar das redondezas demônios que se alegravam com isso. E chamando seu companheiro Silvestre disse-lhe: “ Vá à porta da cidade, e da parte de Deus onipotente ordene aos demônios que saiam de lá”. Ele foi rapidamente até a porta, onde gritou com força: “ Da parte de Deus e por ordem do nosso pai Francisco, saiam todos, demônios”. Pouco tempo depois a concórdia foi restabelecida entre os cidadãos.
São Francisco estava em oração e o diabo chamou-o três vezes pelo nome. O santo perguntou o que ele queria e o diabo respondeu: “ Não há neste mundo nenhum homem, por mais pecador que seja, por quem o Senhor não tenha misericórdia, se ele se converte, mas aquele que se matar por uma dura penitência jamais encontrará misericórdia”. Imediatamente conheceu por revelação a malícia do inimigo, que se esforçara por fazê-lo cair na tibieza. Mas o antigo inimigo, vendo que não prevaleceria assim, inspirou-lhe uma forte tentação da carne. Sentindo-a, o homem de Deus despojou-se de seu hábito e golpeou-se com uma corda fina e dura dizendo: “ Eia, irmão asno, não se mexa, pois é preciso sofrer com o chicote”. Mas como a tentação demorava a passar, jogou-se completamente nu na neve espessa e depois fez com a neve sete blocos arrumados em pilha e começou a falar com o corpo: “ Veja, este maior é sua mulher, os outros quatro, dois são seus filhos e dois suas filhas, os dois restantes são seu escravo e sua escrava. Apresse-se em vestir a todos, pois estão morrendo de frio, mas se esses múltiplos encargos o importunam, sirva o Senhor com solicitude”. Imediatamente o diabo retirou-se, confuso, e o homem de Deus voltou à sua cela, glorificando a Deus.

Fonte: Legenda Áurea, Jacopo de Varazze

A cultura da descartabilidade


O processo de industrialização iniciado na Revolução Industrial teve inúmeras consequências, entre elas, a produção acelerada de bens de consumo, o crescimento do comércio e o nascimento das indústrias. Ao propiciar o acesso a produtos que antes eram privilégio de poucos, inaugurou também uma nova era cultural. Em um mundo onde tudo e todos podem ser comprados surge o consumismo.

Este fenômeno da sociedade contemporânea ampara-se nas técnicas de marketing, sustenta-se e é influenciado pela propaganda - ambas embasadas na Ciência (Psicologia, por exemplo) -, as quais ditam normas sobre o que consumir, e geram uma inversão de valores entre o útil e o necessário. Entre este e aquele permeia o descartável. O necessário ou o útil de hoje, fatalmente, sê-lo-á supérfluo amanhã...

Assim, já não nos contentamos em ter dois ou três pares de sapatos e algumas trocas de roupas, e enchemos nossa sapateira e nosso guarda-roupas com inúmeros calçados e roupas que se tornarão "demodê" na próxima estação...A sensação é a de que escravizantes convenções ditam normas sobre o que é belo, sobre o que é bom. Ao ditar o belo, implícito está o feio, o que não deve ser usado. Estar na moda é garantia de aceitabilidade durante alguns meses... Não questionamos o quanto a beleza imposta é dogmática, fere o subjetivo, a percepção individual, atenta contra a diversidade...

A imposição do supérfluo faz-se notar em todas as fases de nossa vida. Antes mesmo de nascer, várias crianças são esperadas com todo um aparato de roupinhas e brinquedos supérfluos; diferentes ícones anuais seduzem as crianças na escolha de suas mochilas escolares; diversos acessórios e roupas erotizam mais cedo os jovens; a tecnologia nos permite que a satisfação dure apenas o instante da obtenção de nosso novo aparelho (TV, celular, PC etc.), pois que novos aparelhos de maiores recursos são lançados no mercado a uma velocidade vertiginosa...

Em nossa maturidade, matâmo-nos no trabalho , em detrimento da convivência no lar, para amealharmos recursos que nos possibilitem comprar sonhos. Em nossa velhice abundam opções de turismo e lazer que nos fazem desvalorizar o que conseguimos por nunca achá-los suficientes...

Este mundo industrializado fez nascer novas exigências no mercado, qualificações outras para o mundo do trabalho. Profissões foram desvalorizadas ou extintas; condenou-se o artesanal a produto raro. Um exemplo: a moda pret-à-porter. Esta expressão, que significa "pronto para usar", para vestir, surgiu em 1946 com J.C.Weill e foi inspirada na expressão norte americana "ready to wear". Refere-se à roupa comprada pronta em lojas, seja fabricada industrialmente, ou feita à mão. A moda pret-à-porter inaugurou a decadência de profissões como costureiras e sapateiros, bastante comuns a algumas décadas. Saber costurar, inclusive, fazia parte da preparação de uma jovem para o casamento...Hoje, quando encontramos costureiras e sapateiros, o nobre ofício se restringe a pequenos consertos...Nossas roupas, nossos calçados, encontrâmo-los em lojas em grande quantidade e, às vezes, baixa qualidade...Consertá-los talvez saia mais caro: é melhor descartá-los...

A par dos grandes benefícios que a industrialização nos proporcionou penso ser salutar uma reflexão sobre suas consequências. E uma delas é a criação de uma cultura da descartabilidade e o quanto ela nos afeta. Hoje consumimos de tudo e de todos; as pessoas buscam cada vez mais a felicidade mas, esta é vista, assim como o prazer, como um artigo de consumo...A grande frustração das relações ocorre, na maior parte das vezes, pela sua fugacidade...
A cultura da descartabilidade caracteriza-se pela efemeridade; seu paradigma engloba muito mais do que a aquisição de produtos, invadindo o âmago de nossas relações interpessoais, gerando uma fragilidade, uma incerteza na construção de vínculos sólidos, estáveis. O reflexo do mundo do descartável: pessoas descartáveis!

Houve uma substituição de sentimentos como amor, companheirismo por desconfiança, competitividade. Os relacionamentos de hoje caracterizam-se por serem de curto prazo ou mesmo virtuais. O "ficar" ( gíria dos jovens que se refere ao "namoro" de um dia só) dos jovens é um exemplo do consumismo afetivo. Substituem-se pessoas como substituem-se máquinas; vendem-se conselhos e orientações no profissionalismo bem pago de consultórios e escritórios...Busca-se a compra da felicidade; porém, a satisfação de tê-la dura apenas o instante da compra...

O imediatismo nos faz consumir fast-foods, alimentos semi-prontos, instantâneos , de rápido preparo e nos reúne em mesas de restaurantes...Faz-nos desvalorizar a dona de casa, alienarmo-nos com relação à fabricação do necessário, pois que já não temos tempo para produzir nosso próprio alimento e, nem mesmo sabemos como fazê-lo...

A cultura da descartabilidade escancara uma consequência: o lixo dos produtos, o lixo humano dos excluídos, o lixo dos valores, o lixo do original, o lixo da sensibilidade, o lixo da música (?!) que só dura um mês...o lixo da notícia do jornal (que só dura até a próxima...).

É preciso repensar onde colocaremos tanto lixo. Se dos produtos já se evidencia a necessidade da reciclagem, em prol da saúde do Planeta, como faremos com os sub-produtos, resíduos de nossas relações? Não sou descartável; não temos de ser descartáveis.

Alertêmo-nos e alertemos nossas crianças, vítimas da sociedade consumista que criamos! Saibamos orientarmo-nos e orientá-las para o assédio das propagandas, da publicidade que tudo vende e impõe necessário. Saibamos discernir e abrir-lhes os olhos no discernimento do essencial. Vigiêmo-nos e vigiêmo-las para que saibamos identificar o lado patológico do consumismo: a compra desenfreada e sintomática de bens desnecessários.
Não estou aqui tentando, na contramão da História, fazer uma apologia pela volta à "simple life"...Como no programa de TV, infelizmente seria ridículo e hilário...Apenas dei-me conta, ao vir morar numa chácara, do quanto nos cercamos de uma parafernália de coisas ditas imprescindíveis...Dei-me conta do quanto é prazeroso fazer e comer o próprio pão, do quanto são belos os sons da Natureza que a cidade afasta e abafa; do quanto o essencial não se encontra nas propagandas de TV e nas vitrines das lojas...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Sobre a sinceridade


A palavra "sinceridade" vem, etimologicamente, do latim sincerus. Há duas explicações para sua origem - que encontrei na Rede.Vejâmo-las.A primeira é que foi inventada pelos romanos. Estes produziam vasos com uma cera especial. Essa cera era, às vezes, tão pura e perfeita que os vasos se tornavam transparentes. Em alguns casos se conseguia ver objetos que estivessem no interior do vaso, olhando-se por fora. Para esta perfeição da arte antiga os romanos diziam: "Como é lindo, parece até que não tem cera!" "Sine cera" queria dizer "sem cera", uma qualidade de um vaso perfeito, raro, de grande valor que deixava ver através de suas paredes.

Outra explicação da origem: quando os oleiros fabricavam seus vasos, alguns rachavam e apresentavam pequenas frestas pelas quais se perdia o valioso líquido depositado nos vasos. Uma das soluções encontradas foi tapar as frestas com cera...Vasos "sem cera" eram autenticamente íntegros, sem remendos. Vasos "com cera" tinham aparência de autênticos, mas não eram.

Um ponto em comum em ambas as explicações é o caráter de autenticidade, de virtude. Com a evolução dessa palavra, associâmo-la hoje com franqueza, lisura de caráter, ausência de falsidade. Mas o que significa realmente ser sincero? Será mesmo uma virtude ou algo que pode incomodar o outro? À semelhança do vaso, deixar ver os sentimentos que nos vão dentro do coração, nem sempre é bem recebido com olhares de admiração...

Há uma estreita relação entre sinceridade e verdade; porém, não se confundem. Ser sincero implica em auto conhecimento; não basta dizer a verdade, o que se pensa para outra pessoa: é preciso sê-lo e dizê-la, primeiramente, para si mesmo. E arguir-se: estarei com minha conduta contribuindo para um relacionamento autêntico?

Sinceridade pode ser notada no olhar, no gesto espontâneo; não diz mais do que precisa. Já a verdade, por exemplo, realiza mais do que se propõe...A sinceridade caminha ladeada pelo respeito e pela tolerância: ao outro, ao seu próprio tempo e, se necessário, sabe se calar numa eloquência muda .

É possível viver com sinceridade nesses tempos onde impera a hipocrisia, onde se maquiam sentimentos pela fugacidade dos próprios relacionamentos? Onde há uma cultura que endeusa o descartável, uma virtualidade que constrói perfis nas redes de relacionamento? Onde aparentar ser ganha mais pontos que ser? Onde tê-la na Política? Onde esse "homem verdadeiro" que à luz das modernas lanternas tão somente consegue o resultado frustrado de Diógenes a 400 a. C.?

Penso que na sinceridade há uma flecha que pode ferir desmesuradamente; há uma faca de dois gumes: um que retira as cascas de si mesmo, revelando a essência insubornável e, outra que fere o dedo de quem a usa por haver aprofundado o corte nas aparas ( de sí e de outrem)...A verdade que se escancara, por vezes, na sinceridade de um comportamento, pode revelar um lado desconhecido - de nós mesmos ou do outro. A ausência de medida poderá transformar o néctar em enjoativo doce e o sal da gota em insalobra bebida...

Qual o equilíbrio? Se é certo que os excessos são nefastos, penso que sim! devemos ser e cultivar a sinceridade!Mas não aquela imprudente, que magoa, que beira o sarcasmo, que deflora e expõe a intimidade. Nem aquela que somente cala e deixa que o outro a intua, a perceba. Não aquela louca, utópica , dos excêntricos, e que a cada dia mais sós, apenas conseguem granjear inimizades ou a complacência dos "sãos" aos loucos...

Creio que devamos sim, ser o mais perfeita e conscientemente sinceros. Isso significa, repito, conhecer-se primeiro; daí conhecemos o outro. Respeitar-se primeiro; daí não violaremos o outro. Falar após reflexão; assim, as críticas no futuro serão melhores e nossas chances de sermos compreendidos em nosso pensamento aumentarão. Na verdade, sinceridade é essencial. Mas creio não ser possível vivê-la plenamente sem que se rasguem as entranhas da intolerância ao diferente, do respeito ao discernimento do outro. Sigamos com nosso exemplo - pausado, mas refletido; mas, não nos esqueçamos que o outro poderá não entendê-lo...poderá - o que é pior - deturpá-lo ou desacreditá-lo...Sigamos, mesmo assim...

Deixo abaixo alguns pensamentos sobre Sinceridade e um fragmento de texto de Montesquieu:

"A sinceridade imprudente é uma espécie de nudez que nos torna indecentes e desprezíveis" (Marquês de Maricá)

"Pouca sinceridade é uma coisa perigosa, e muita sinceridade é absolutamente fatal" (Oscar Wilde)

"Não há no mundo coisa mais difícil do que a sinceridade e mais fácil do que a lisonja" (Dostoievski- Crime e Castigo)

"Estamos tão familiarizados com a hipocrisia que a sinceridade de alguém nos parece um sarcasmo" (Helena)

"Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-lhe" (Friedrich Nietzsche)



SINCERIDADE PROSCRITA

A verdade permanece sepultada sob as máximas de uma falsa delicadeza. Chama-se saber viver à arte de viver com baixeza. Não se põe diferença entre conhecer o mundo e enganá-lo; e a cerimônia, que deveria ater-se inteiramente ao exterior, introduz-se nos nossos costumes mesmos.

A ingenuidade deixa-se aos espíritos pequenos, como uma marca da sua imbecilidade. A franqueza é olhada como um vício na educação. Nada de pedir que o coração saiba manter o seu lugar; basta que façamos como os outros. É como nos retratos, aos quais não se exige mais do que parecença.Crê-se ter achado o meio de tornar a vida deliciosa, através da doçura da adulação.

Um homem simples que não tem senão a verdade a dizer é olhado como o perturbador do prazer público. Evitam-no, porque não agrada; evita-se a verdade que anuncia, porque é amarga; evita-se a sinceridade que professa, porque não dá frutos senão selvagens; temem-na porque humilha, porque revolta o orgulho que é a mais cara das paixões, porque é um pintor fiel, que faz com que nos vejamos tão disformes como somos.

Não há por que nos espantarmos, se ela é rara: é expulsa, proscrita por toda a parte. Coisa maravilhosa: só a custo encontra asilo no seio da amizade!

Seduzidos sempre pelo mesmo erro, não fazemos amigos senão para dispormos de pessoas particularmente destinadas a comprazer-nos: a nossa estima acaba com a sua complacência; o termo da amizade é o termo dos agrados. E tais agrados que são? Que é o que nos agrada mais nos nossos amigos? São os contínuos louvores, que deles recolhemos como tributos. (in Elogio da Sinceridade)

São Francisco de Assis : vida e obra em capítulos.

Ilustração: casadeportinari.com.br



Introdução


Francisco foi primeiramente chamado João, mas depois mudou o nome e passou a ser conhecido como Francisco. Essa mudança de nome parece ter se devido a muitas causas. Primeira causa, lembrar um milagre, o de ter recebido de Deus o conhecimento da língua francesa, daí sua legenda afirmar que sempre que estava pleno de ardor do Espírito Santo punha para fora suas emoções em francês. Segunda causa, divulgar seu ministério, daí sua legenda afirmar que foi como resultado da sabedoria divina que ele foi chamado assim, a fim de que por esse nome singular, inabitual, sua crença fosse conhecida mais rapidamente em todo o universo. Terceira causa, indicar resultados que devia obter, quer dizer, dar a conhecer que ele e seus filhos deviam tornar francos e livres muitos escravos do pecado e do demônio. Quarta causa, destacar a magnanimidade de seu coração, pois se os francos são conhecidos pela ferocidade, têm por natureza um espírito de verdade e magnanimidade. Quinta causa, cortar os vícios pela virtuosidade de sua palavra. Sexta causa, aterrorizar o demônio e afugentá-lo. Sétima causa, assegurar a virtude pela perfeição de suas obras e pela honestidade de sua maneira de viver. Estas três últimas causas estão associadas às franciscas, machados levados pelos cônsules de Roma como insígnia de terror, de segurança e de honra.

Francisco, escravo e amigo do Altíssimo, negociante nascido na cidade de Assis, consumiu seu tempo vivendo na vaidade até quase os vinte anos de idade. O Senhor serviu-se do chicote da enfermidade para corrigi-lo e transformá-lo subitamente em outro homem, no qual começou a se manifestar o espírito profético. De fato, quando junto com muitos outros foi capturado pelos guerreiros de Perúgia e colocado na prisão, todos os outros estavam tristes e só ele de alegre, por isso os demais presos o repreenderam e ele respondeu: “ Saibam que me regozijo porque serei venerado como santo no mundo inteiro”.




Fonte:Legenda Áurea; Jacopo de Varazze

domingo, 4 de outubro de 2009

Dia 4 de outubro: dia de São Francisco de Assis


Nascido em Assis (Itália) por volta de 1181/1182, foi batizado com o nome de Giovanni. O nome Francisco (em italiano Francesco: pequeno francês) foi-lhe dado pelo pai Petri di Bernardone que, como comerciante, achou por bem mudar o nome em homenagem à França - lugar onde realizava bons negócios. Foi canonizado em 1228 por Gregório IX.

Por seu grande amor aos animais, o dia 4 de outubro é também conhecido como o Dia Internacional da Ecologia, Dia da Natureza, Dia dos animais, Dia Mundial das crianças.

Acostumei-me a ver Francisco de Assis como um "santo". Porém, hoje não o vejo só assim...Vejo nesse excepcional homem um revolucionário que ousou criticar uma Igreja que se deteriorava a largos passos; vejo um apaixonado por Deus que conseguia ver a face do Amado em toda a Sua criação - fossem homens, animais, plantas, estrelas e planetas, forças naturais ( como a chuva, o vento, o fogo), aos quais chamava de irmãos...

Vejo um exemplo de desprendimento : Francisco não se isolava como um eremita, despojado de bens materiais e dependente da caridade alheia. .Vejo um exemplo de desprendimento : Francisco não se isolava como um eremita, despojado de bens materiais e dependente da caridade alheia.

Para se ter uma noção, na Ordem franciscana (e em sua vertente feminina, a Ordem das Irmãs Clarissas),os meios de subsistência são oriundos do trabalho individual, e só em último caso, é pedida ajuda externa.Não possuem bens de qualquer natureza.O voto de pobreza é seguido à risca : nem a própria roupa lhes pertence!. Seus trajes são humildes túnicas de grossa lã (com o significado simbólico de vestuário dos humildes) amarradas com uma corda na cintura e sandálias rústicas. O cordão contém três nós, símbolos dos votos de pobreza, obediência e castidade.

Em um mundo onde impera o poder do dinheiro, onde seitas cristãs associam o amor de Deus por seus eleitos à prosperidade, ao luxo traduzido por carros, mansões, fazendas e empresas; onde a pobreza é considerada uma "obra do Diabo" é muito difícil conceber alguém como Francisco de Assis...Somente um louco - diria-se hoje - faria o que ele fez, viveria como ele viveu...

Francisco veio de uma família abastada, onde teria um natural futuro de próspero, bem sucedido comerciante.Porém, desfez-se de todos os seus bens materiais para viver uma vida de oração viva em meio à pobreza...Naquele histórico momento, em que numa praça abdicou de sua herança frente a um pai estupefato, assistiu-se o nascimento de um homem ímpar...

Há alguns mistérios que cercam a vida de Francisco (por exemplo, o fenômeno das cinco chagas de Cristo, entre outros); há um lado místico de alguém altamente evoluído e, que ainda hoje desafia a Ciência.Independentemente do que possa ser inserido no campo dos milagres da fé, algo é digno de nota: a fidelidade aos seus altos princípios morais, sua irrepreensível conduta após a "iluminação", seu amor incondicional, seu pacifismo inimaginável à época em que viveu...Raros homens puderam ser tidos como exemplos de virtude ao longo dos séculos...Religiões vêm e vão; surgem umas, renascem outras tais quais Fênix; desaparecem , hibridizam-se e se transmutam em novas promessas divinas...Porém, avatares não morrem, nem se perdem suas palavras...
O que poderíamos hoje apreender do exemplo de Francisco? O abandono de bens materiais não deve ser seguido ao pé da letra em nosso mundo capitalista; entendâmo-lo como o desapego a estes bens como uma renúncia consciente do supérfluo; pensêmo-lo como uma barreira à ganância que produz workaholics(viciados em trabalho), ao muito dinheiro no bolso e poucos amigos leais, à baixa qualidade de vida,à fortuna que escraviza e transforma irmãos em inimigos após a morte do pai...

Tenho um oratório em minha sala (para desespero dos evangélicos que acreditam que cultuo imagens afrontando a Bíblia...) com uma escultura de São Francisco de Assis.Ela serve para me lembrar a cada dia os altos valores que devo desenvolver em mim...ela me fala, pelo evocar da conduta de Francisco, de Amor, de alguém que em relação às pessoas _ independentemente de seus credos, cor de pele, raça ou sexo dizia: "Todos os seres são iguais, pela sua origem, seus direitos naturais e seu objetivo comum". TAU é a sua assinatura que espalha o amor universal, a paz e a humildade, o comedimento e equilíbrio nas situações do dia-a-dia...

Francisco de Assis morreu em 1226.Repetindo o episódio de seu nascimento, sua renúncia à vultosa herança paterna (onde se despiu em praça pública e entregou suas próprias vestes ao pai), entregou-se à morte nú. Suas palavras: 'Nú sobre o chão nú"!

Deixo abaixo duas poesias (orações) belíssimas. A primeira, Oração da Paz :


Senhor: Fazei de mim um instrumento de Vossa Paz!
Onde houver ódio, que eu leve o Amor,
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão,
Onde houver discórdia, que eu leve a união,
Onde houver dúvida, que eu leve a fé,
Onde houver erro, que eu leve a verdade,
Onde houver desespero, que eu leve a esperança,
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria,
Onde houver trevas, que eu leve a Luz.
Ó Mestre,
Fazei que eu procure mais:
Consolar, que ser consolado;compreender que ser compreendido;
Amar, que ser amado.
Pois é dando, que se recebe.
É perdoando que se é perdoado e
É morrendo, que se vive para a vida eterna.
Amém.

O CÂNTICO DO IRMÃO SOL (OU LOUVORES DAS CRIATURAS)

Altíssimo, onipotente, bom Senhor,
Teus são o louvor, a glória, a honra
E toda a bênção.
Só a ti, Altíssimo, são devidos;
E homem algum é digno
De te mencionar.
Louvado sejas, meu Senhor,
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente o senhor Irmão Sol,
Que clareia o dia
E com sua luz nos alumia.
E ele é belo e radiante
Com grande esplendor:
De ti Altíssimo, é a imagem.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pela Irmã Lua e as Estrelas,
Que no céu formaste claras
E preciosas e belas.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo Irmão Vento,
Pelo ar, ou nublado
Ou sereno, e todo o tempo,
Pelo qual às tuas criaturas dás sustento.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pela Irmã Água,
Que é mui útil e humilde
E preciosa e casta.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo Irmão Fogo
Pelo qual iluminas a noite.
E ele é belo e jucundo
E vigoroso e forte.
Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa Irmã a Mãe Terra,
Que nos sustenta e governa,
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pelos que perdoam por teu amor,
E suportam enfermidades e tribulações.
Bem-aventurados os que as sustentam em paz,
Que por ti, Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa Irmã a Morte corporal,
Da qual homem algum pode escapar.
Ai dos que morrerem em pecado mortal!
Felizes os que ela achar
Conformes à tua santíssima vontade,
Porque a morte segunda não lhes fará mal!
Louvai e bendizei a meu Senhor,
E dai-lhe graças,
E servi-o com grande humildade.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Aprendendo com o Sol...








Um feliz Outubro!

Seja como o Sol todos os dias!

Beijos
Helô Spitali